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Tecendo Redes de Saberes e Conversações

Na cidade grande, estender uma rede entre uma árvore e outra para tirar um
cochilo pode ser considerado um luxo. Mesmo porque, se você pedir uma rede a
alguém, é possível que a pessoa lhe indique o ponto mais próximo de conexão à
internet. Mais difícil, porém, do que conseguir a rede certa, talvez seja
encontrar uma hora para descansar. Afinal, pode olhar na agenda: hoje, mais do
que nunca – além das árvores e do cochilo – o tempo livre também tornou-se uma
raridade.
Não é apenas pelo tempo que se passa nos caminhos entupidos de automóveis nem
pelo excesso de trabalho até as 10 da noite. Faz também toda a diferença a
maneira como o volume de informações e a própria busca por estar 24 horas
on-line influenciam a humanidade e o seu tempo livre. “Percebi que havia algo
errado quando saí para jantar com seis amigos e em determinado momento todos nós
substituímos o bate-papo na mesa pela troca de mensagens em nossos
smartphones”, diz o designer Marcelo Bohrer, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Mas o despertar para algum tipo de mudança em sua vida ocorreu somente depois
de Bohrer ter sentido na própria saúde os impactos do estresse. Assim, em 2006,
ele criou o Clube do Nadismo, que já conta com mais de 7 mil sócios no Brasil e
em oito países. “Se você quiser identificar um objetivo na prática do nadismo é
a melhora da qualidade de vida, mas o verdadeiro objetivo é simplesmente passar
um tempo sem fazer nada”, explica o designer.
Para praticar o nadismo, o fundador do clube diz que o ideal é procurar um
lugar mais tranquilo e próximo à natureza, como um parque ou uma praça, embora o
ambiente urbano não seja um empecilho. Não vale ler, escrever, conversar, checar
e-mails nem falar ao telefone. Apenas caminhar e observar ao redor. Como orienta
o manifesto nadista, “é algo para ser absolutamente sem utilidade, não
produtivo, sem expectativas, sem controle. Simplesmente relaxar e deixar
acontecer”. O tempo para isso, inclusive, é bem flexível. O recomendado para que
a mente relaxe, no entanto, é reservar à prática pelo menos entre 10 e 15
minutos do dia.
Para quem se assustou, vale destacar que Bohrer tampouco é um líder radical
do clube, entendendo que cada um tem o seu ritmo para se adaptar e deixar de
realizar as tarefas por certo tempo. O designer observa ainda que a
maior dificuldade das pessoas que tentam seguir o nadismo não é nem se permitir
parar uns instantes, mas confundir a interrupção das atividades com perda de
tempo. Desse modo, a dica é tentar reduzir a sensação de culpa. Daí, aliás, a
importância de não fazer absolutamente nada, em vez de se dar o privilégio de
seguir com pequenas atribuições. “Ao não fazer nada, você entende que isso
também pode ser produtivo”, justifica.
Se ainda está difícil encontrar pretexto para se dar ao luxo de não fazer
nada, o Clube do Nadismo organiza também atividades para ajudar as pessoas a
quebrarem essa barreira de achar que isso tudo é um tempo jogado fora. Uma vez
por mês são realizados encontros em parques para, digamos, uma boa pausa. “Em
grupo e com menos inibições, a pessoa se motiva a praticar”, afirma Bohrer. As
reuniões costumam durar 45 minutos nos parques.
De acordo com ele, esta época do ano é também uma das melhores para tentar se
desligar. A explicação está na corrida para as compras de Natal, quando, com as
buscas incessantes das pessoas por preços baixos e sonhos de consumo, os
shoppings centers, abertos por períodos mais longos e extensas filas, há sérios
picos de estresse na população, em todas as idades.
COOL HUNTERS
A professora Janiene Santos, mestre em Ciências da Comunicação pela
Universidade de São Paulo (USP), é também coordenadora do curso de Cool
Hunters do Instituto Europeo Di Design (IED). Por meio de técnicas que
envolvem a análise de pesquisas, a observação nas ruas e o debate de
profissionais das mais diversas áreas do conhecimento humano, os cool
hunters são capazes de identificar diferentes tendências na sociedade.
E, desta vez, não faz parte de qualquer sentimento saudosista. Sem dúvida, a
especialista atesta que, diante das transformações tecnológicas e no modo de
vida urbano, sim, tem faltado mais tempo livre do que jamais faltou em outras
décadas. No fim das contas, acesso rápido, automatização, industrializaçã o e
informação não trouxeram a felicidade e a tranquilidade que todos almejavam. Em
excesso, esses fatores acabaram criando outras dores de cabeça, sendo a falta de
tempo livre uma delas. Evidentemente, isso acaba se refletindo no comportamento
e no consumo de diversas pessoas.
“Há vezes em que, inconscientemente, os produtos feitos à mão remetem a um
passado romantizado, quando se tinha tempo e energia para confeccionar um belo
objeto. Eles hoje se tornam luxo e são mais caros porque se trata de raridades
que não estão na linha de montagem das fábricas, mas têm o toque pessoal e o
esforço de quem os fez”, exemplifica Janiene.
Segundo a professora, outro hábito que faz referência a uma época menos
atribulada e por isso conquista cada vez mais adeptos são as hortas – que na
cidade ganham versões compactas com vasos na área de serviço ou na própria
janela dos apartamentos, onde se veem pimentinhas, orégano, cebolinha e salsa,
entre outros. “O cultivo de hortas é um hábito de nossos avós que, por estar
associado ao campo, tem a ver com a vida mais calma e em contato com a natureza,
na qual as pessoas colhiam seus próprios alimentos”, analisa. Além do apelo
saudável, nessa mesma linha segue o consumo dos produtos orgânicos, livre dos
males e do dinamismo da industrialização.
Nessa esfera, cresce ainda entre alguns grupos a valorização da vida mais
simples e rústica de outras épocas, quando os objetos eram feitos de modo
artesanal e o ser humano tinha tempo de experimentar o mundo de diversas
maneiras. Assim, conforme Janiene constata, hoje até o presente do aniversário
de casamento muda com maior frequência.
Em determinadas situações, é comum, em vez de ganhar uma joia, a esposa
preferir viajar com o marido para uma praia, onde poderá calmamente ver a chuva
cair e pisar descalça a areia. “Ainda que o casal fique em um hotel
cinco-estrelas, isso é a troca de um símbolo concreto da riqueza e da eternidade
por um presente que tem a ver com a experiência rara de colocar a mão na massa”,
compara a professora, que também dá aula no curso de Joias e Acessórios do
IED.
Nessa mesma linha, ganham pontos hábitos como deixar o carro em casa e ir
para o trabalho de bicicleta, e preparar o jantar para os amigos, em vez de ir
ao restaurante. “Cozinhar em casa e ter as pessoas de que gostamos ao redor do
fogão e da mesa é uma cena que fortalece os laços afetivos”, interpreta Janiene,
diante de um mundo povoado de relações superficiais.
Assim, passam a ser bem-vistas também as atividades que envolvem o
compartilhamento de informações, como as empresas que desenvolvem produtos com
base nas sugestões dos próprios consumidores. “Um hábito que vem ganhando
popularidade são os noivos que preferem encomendar a aliança no ateliê de um
ourives a comprar os anéis prontos. Mais do que tudo, é uma experiência
compartilhada, misturada ao caráter artesanal do produto”, diz.
Janiene destaca, porém, que a sociedade assiste a um emaranhado de
tendências, claro. Enquanto há pessoas que convivem com a necessidade de
desacelerar de alguma forma, outras nutrem ansiedade sem igual por adquirir as
maiores novidades da tecnologia e acelerar o ritmo.
Se você faz parte do primeiro grupo, eis uma boa notícia: nos EUA, já existem
hotéis que propõem uma desintoxicação digital. O hóspede guarda seus apetrechos
eletrônicos na portaria e fica livre para desfrutar da vida sem conexão, pelo
menos até o fim das férias.

Eduardo Shor , Página 22

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Tags: hortas_caseiras, lazer, nadismo, orgânicos, tempo_livre

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