RETRANS - REDE TRANSCULTURAL HOLISTA

Tecendo Redes de Transformações

Eduardo Sejanes Cezimbra

20 de novembro de 1695 : a relevância desta data histórica para desesconder o Brasil


Na mesma concepção do vídeo da BBC "Racismo: Uma História", o livro "O Quilombo dos Palmares" de Benjamin Péret , autor da tradição de historiadores marxistas contestadores da versão oficial, nos dá sua primordial contribuição para interpretarmos sob uma ótica mais popular a História do Brasil e do mundo, principalmente nesta página rasgada e queimada do holocausto e diáspora africana.

Desse Pão eu Não Como!
Mário Maestri e Robert Ponge

O quilombo dos Palmares, livro de Benjamin Péret ,Org., ensaios e comentários de M. Maestri e R. Ponge Porto Alegre, EdiUFRGS, 2002

Benjamin Péret nasceu em 1899 na França, onde morreu em 1959, após vida atribulada que o levou a cruzar o Atlântico por três vezes, duas em direção ao Brasil. Poeta, surrealista e marxista, realizou leitura revolucionária do passado do Brasil que se mantém semi-ignorada da intelectualidade brasileira.


Jovem rebelde de família modesta, em 1917 foi enviado pela mãe ao Exército, vivendo enojado a conclusão da hecatombe mundial. Atraído pela poesia, após a guerra, ligou-se aos poetas franceses de vanguarda, entre eles Louis Aragon e André Breton, participando da radicalização estético-política em curso na França. Em 1925, já surrealistas, ele e seus companheiros denunciaram o colonialismo francês no Marrocos, entrando em 1926-7 no Partido Comunista Francês. Em 1927, conheceu e casou-se com a cantora lírica brasileira Elsie Houston, cunhada do jovem comunista Mário Pedrosa.

Em 1928, os surrealistas denunciaram a burocratização da URSS, mantendo-se comunistas. Péret foi mais longe, ligando-se à Oposição Internacional de Esquerda, impulsionada por León Trotsky, expulso da URSS, em Fevereiro de 1929.



O NOVO MUNDO

Os surrealistas rejeitavam a reificação capitalista da sociedade e definiam a civilização ocidental como mundo sem poesia, mitos e sonhos, voltando-se esperançosos para a arte e a cultura dos povos primitivos da África, América e Oceania.

Em busca do frescor prometido pelo Novo Mundo, Péret e a esposa partiram para o Brasil, onde chegaram em inícios de 1929. Ali, Péret relacionou-se com os modernistas, militou na Liga Comunista Internacionalista [trotskista], estudou as artes populares e primitivas.

No Brasil, Péret publicou treze artigos sobre as religiões afro-brasileira; redigiu prefácio de livro sobre a revolta do encouraçado Potemkin; escreveu ensaio sobre a revolta dos marinheiros negros, em 1910.

Em Agosto de 1931, nasceu seu filho Geyser. Em Novembro, foi preso e deportado pela polícia política. Na ocasião, seu livro O almirante negro sobre a revolta da baía da Guanabara foi seqüestrado e completamente destruído pelos esbirros de Getúlio.

LUTANDO NA ESPANHA

Na Europa, Péret militou na seção francesa da Organização Internacional de Esquerda e, em 1936, na Espanha, arrolou-se nas milícias do POUM e, a seguir, nas filas anarquistas espanholas. Em Barcelona, conheceu a futura companheira, a pintora Remedios Varo. Em meados de 1937, retornou à França.

Mobilizado em 1939, foi encarcerado por agitação internacionalista. A debacle do exército francês permitiu que fugisse da prisão, se refugiasse em Marselha, embarcasse para o México, onde chegou em Janeiro de 1942.

No México, por seis anos, militou, escreveu e estudou a cultura pré-colombiana. Em 1946, com Natália Sedova, viúva de Trotsky, rompeu com a IV Internacional, mantendo-se fiel ao marxismo-revolucionário.

Em 1946, o comunista brasileiro Édison Carneiro publicava, no México, o livro O quilombo de Palmares, lançado no Brasil em 1947. As ligações de Péret com o Brasil sugerem que tenha lido o livro ainda no Novo Mundo.

PÉRET E PALMARES

Em inícios de 1948, Péret estava de volta à França. Com a saúde debilitada, trabalhava como revisor e atuava como intelectual e revolucionário. Em inícios de 1955, foi internado por problemas de saúde. Em Maio, partiu para o Brasil, a convite do filho.

Desembarcou em 7 de Junho no Rio de Janeiro e, dias mais tarde, anunciou que escreveria "um texto sobre a república negra de Palmares". Pronto em início de Setembro, o ensaio foi publicado na revista paulista Anhembi, em Abril e Maio de 1956.

Péret viajou ao Norte-Nordeste, ao Mato Grosso e à ilha do Bananal para estudar a arte nativa e popular. Ao preparar para partir para a França, foi preso pela polícia política, devido ao antigo mas válido decreto de expulsão, sendo libertado a seguir.

Péret chegou à França em inícios de 1959, falecendo no mesmo ano. Seus companheiros sintetizaram sua vida de rejeição à autoridade despótica e à passividade cúmplice ao mandarem gravar, em vermelho, sobre o granito frio de sua tumba: "Desse pão, eu não como".

HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Após a destruição de Palmares, em 1694, cronistas e historiadores lusitanos e brasileiros referiram-se aqueles sucessos, em geral sumariamente. Mesmo quando louvavam o heroísmo dos insurretos, propunham que a confederação fora ameaça à civilização no Brasil.

Em sua História geral do Brasil (1854-1857), Francisco Adolfo de Varnhagen dedicou breves parágrafos a Palmares e lamentou que não "houvesse um cronista" que perpetuasse a heróica ação dos "paulistas" na destruição do reduto negro.

Após a Abolição, em 1888, os quilombos e Palmares continuaram ocupando espaço mínimo nas preocupações dos cientistas sociais nacionais. A exceção à regra foi o médico e cientista social mulato maranhense Nina Rodrigues, radicado na Bahia.

Em 1905, em "A Tróia Negra: erros e lacunas da história de Palmares", definiu a confederação palmarina como persistência da cultura africana. Defensor do racismo científico, saudou a destruição de Palmares.

ESCRAVIZADOS E ESCRAVIZADORES

Em 1933, em Evolução política do Brasil, Caio Prado Júnior prometeu ler a história do Brasil a partir do materialismo histórico, mas não a analisou desde a oposição escravizador-escravizado. Sob o influxo de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, de 1933, os estudos afro?brasileiros dos anos 1930 repetiram em geral as lições de Nina Rodrigues.

Em 1942, em A Aculturação negra no Brasil, Artur Ramos assinalou a presença de quilombos em diversas regiões e épocas do Brasil e definiu-os como fenômenos "africanos" e "contra?aculturativos". Em 1947, Édison Carneiro seguiu a caracterização de Rodrigues e Ramos no seu importante livro, mas negou-se a elogiar a destruição do reduto negro.

A interpretação culturalista expressava a negativa da apreensão do caráter escravista e da centralidade da oposição escravizador-escravizado no passado pré-1888. Via-se o quilombo como fenômeno cultural de origem africana e jamais como luta de classes sob a escravidão.

O impasse interpretativo surgia da definição do caráter semi-feudal do Brasil, que ancorava a proposta política da submissão dos trabalhadores à burguesia nacional, destinada a completar a revolução democrático-burguesa no Brasil.

O QUE FOI PALMARES?

Em "Que foi o quilombo de Palmares?", Péret apoiou-se factualmente no livro de Carneiro, realizando verdadeira revolução copernicana na interpretação do passado do Brasil.

Péret preocupou-se sobretudo com duas questões: o sentido da luta dos cativos e a caracterização da organização palmarina, que abordava a partir do princípio da necessária determinação tendencial da forma de governo pela base material.

Péret corrigiu a definição de Carneiro da fuga como "ato negativo"; criticou a explicação da origem africana do Estado palmarino; propôs periodização aproximativa da "evolução" de Palmares a partir de deduções lógicas e reflexões metodológicas.

Vimos que mesmo os historiadores cativados pelo heroísmo de Palmares aplaudiam a sua destruição e que Édison Carneiro apresentou Palmares como saga popular e negou-se a celebrar seu fim.

DE PERNAS PARA O AR

Péret pôs o mundo de pernas para o ar. Negou a possibilidade do desenvolvimento de Palmares no seio da formação escravista, em crítica à proposta stalinistas da construção do socialismo em países isolados. Lembrou que, para sobreviver, deveria ter arrastado "todos os negros" à luta contra a "escravatura".

Apesar disso, para Péret, sequer a improvável revolta servil geral em Pernambuco-Alagoas teria vencido, devido à imensa desigualdade de forças entre Palmares e Portugal-Holanda, pontas de lança da Europa nessas regiões da América.

Porém, assinalou que, mesmo vencida, a luta geral contra o escravismo aceleraria "a emancipação dos escravos", apressando "grandemente a abolição da escravatura", o principal entrave ao progresso no Brasil.

Era radicalmente nova a definição de Péret da oposição inconciliável entre cativos e escravistas, do caráter escravista do passado brasileiro, da destruição da ordem negreira como necessária ao progresso da civilização no Brasil.

DE VOLTA AO BRASIL

Apesar de conhecido, o ensaio de Péret permaneceu semi-ignorado. Na época, o movimento social não possuía força suficiente para assegurar que seu radical revisionismo entranhasse raízes nas ciências sociais brasileiras, ensejando trabalhos que lhe dessem continuidade.

O ensaio de Péret foi reeditado, em português, em 1988, quando das multitudinárias celebrações do I Centenário da Abolição da Escravatura no Brasil, não no Brasil, mas em Portugal, sob a iniciativa de Ruy Coelho.

A presente reedição do ensaio de Benjamin Péret - O quilombo dos Palmares -, pela editora da UFRGS, objetiva permitir difundir essa interpretação histórica de nosso passado e que o intelectual militante francês lance, outra vez, seu olhar penetrante sobre um país que tanto amou.

Mário Maestri, 54, brasileiro, é doutor em História pela UCL, Bélgica, e professor da UPF.
.
Robert Ponge, 57, francês, é doutor em Letras pela USP, SP, e professor da UFRGS.
.

Tags: 20, brasil, consciência, de, dos, negra, novembro, palmares, zumbi

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A cada três minutos acontece um acidente envolvendo carros na cidade de São Paulo.

Vinte mil pessoas são mortas, por ano, vítimas de acidentes de trânsito no Brasil, mas números não oficiais apontam quase o dobro. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mais de um milhão de pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente nestes acidentes!

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Por isso, o livro Apocalipse Motorizado - A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído apresenta uma coletânea inédita de textos sobre a questão do automóvel como uma imposição social, discutindo seus ´efeitos colaterais´ nefastos como poluição, dependência do petróleo, expropriação do espaço público comum e a exclusão social. Mais que uma abordagem teórica, o livro propõe ações práticas e soluções à libertação da humanidade dessa tirania.

A coletânea é ilustrada pelo cartunista americano Andy Singer, cujo livro CARtoons tornou-se referência nos movimentos anticapitalistas ao redor do mundo.

Apocalipse Motorizado não representa apenas uma análise da insustentável organização de nosso atual sistema de transportes, mas também insere sugestões de como, de maneira inteligente e criativa, se opôr à ditadura do automóvel e suas consequências desumanas.

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Ivan Illich (1926-2000) foi um dos pensadores mais surpreendentes dos anos 70 e 80. Com precisão e força atacou cada um dos falsos consensos da sociedade ocidental. O texto de Illich neste livro teve imenso impacto no pensamento libertário de hoje.

André Gorz nasceu em Viena, em 1924, é autor de ´Crítica da Divisão de Trabalho´ (Martins Fontes, 1989)

Aufheben é o nome de um grupo autonomista marxista da Inglaterra surgido nos anos 90.

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Ned Ludd é organizador do livro Urgência nas Ruas ­ Coleção Baderna - Conrad, 2002


Ciência precisa de metáforas melhores, diz pesquisador
Livro critica estágio atual da biologia e sugere caminhos para o futuro dessa disciplina

Se a poesia emprega metáforas para despertar o encanto, também a ciência usa esse recurso, para uma melhor compreensão de conceitos abstratos ou complexos. Por isso os cientistas falam, por exemplo, da movimentação do som por meio de "ondas". Porém, se na poesia o mau uso de metáforas resulta apenas em uma obra duvidosa, na ciência a compreensão literal das metáforas leva a perigosos mal-entendidos.

Esse é o eixo central das idéias discutidas por Richard Lewontin, pesquisador da Universidade de Harvard (EUA), em conferências realizadas em Milão que, com o acréscimo de mais um capítulo, tornaram-se o livro A tripla hélice. Lewontin debate a idéia de que somos pré-determinados pelos genes, aponta incorreções na teoria da evolução de Darwin, discute a visão cartesiana de que o corpo é uma máquina e sugere caminhos para o estudo da biologia.

O autor critica o uso do termo desenvolvimento para sintetizar as alterações por que passamos do nascimento à morte. Lewontin afirma que o "termo traz a idéia de algo que se desenrola a partir de algo já presente". Segundo esse conceito, as características dos seres vivos seriam a mera expressão do seu material genético e nunca dependeriam da influência do ambiente (como se verifica, nos humanos, no caso da língua que cada indivíduo fala).

Lewontin também discute a atualidade da teoria da evolução. O termo criticado dessa vez é a adaptação -- "o processo pelo qual um objeto se torna apto a satisfazer uma existência preexistente". Segundo esse conceito, a diversidade das espécies resultaria da existência de "diferentes tipos de ambientes aos quais os seres vivos se compatibilizaram mediante a seleção natural". O autor condena a separação entre ambiente e organismo. As formigas, por exemplo, fazem ninhos, as plantas consomem gás carbônico do ambiente e produzem o oxigênio a ser usado pelos animais. Organismos e ambiente agem um sobre o outro em um processo constante de transformação.

Mais uma metáfora combatida é a comparação de seres vivos a máquinas. Para estudar um organismo, a biologia divide-o em partes, como se fosse possível separá-lo em funções e em seguida "determinar um todo claro e de anatomia óbvia". É impossível estudar como alguém segura um objeto analisando apenas os movimentos da mão. Ele precisa dos olhos para ver, os músculos se contraem a partir do encurtamento das fibras musculares, que por sua vez depende da química das proteínas actisina e miosina.

Embora admita que as técnicas de que a ciência dispõe já bastam para que avanços sejam feitos, Lewontin esclarece que as respostas que a biologia elabora dependem das perguntas que faz. Se o estudo dos seres vivos está permeado de noções equivocadas, as perguntas serão mal-formuladas e as respostas não esclarecerão o que realmente interessa.

A tripla hélice é um livro atual e envolvente. Em uma linguagem simples, porém de raciocínios complexos, permite uma leitura surpreendente a quem quer que tenha domínio razoável de biologia e genética.


A tripla hélice - gene, organismo e ambiente
Richard Lewontin (trad.: José Viegas Filho)
São Paulo, 2002, Companhia das Letras
138 páginas - R$ 25

Denis Weisz Kuck
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